22/5/08

Pintura de KANDINSKY
DESTINO
Sabe-se lá
Em que lugar
Encontra-se meu desatino.
Se lágrimas foram perdidas
Tantas foram repartidas.
Uma pancada na porta,
Atendo o chamado
E respondo ao mesmo tempo
Que é o destino.
O mesmo eu construí
De modo tão repentino.
Uma porta,
Um chamado na consciência.
Respostas,
Canções que não são de decadência.
Destino, residência que com minhas mãos
Construí.
Mundo e reflexões
Estas histórias eu escrevi.
Correntes e memórias
A tudo conciliou o destino
De modo tão repentino.
Uma passagem por vales ásperos.
Uma linguagem repleta de sábios murmúrios
E uma viagem sangrenta para muitos semelhantes.
Planeta, atrações, reações,
Estas cantigas constelação de violeiro
Mil acordes para meu destino.
Ternura, quente envolvimento
Minhas amigas, hipnotismo pelo olhar quente
E felino.
Mil mulheres para meu destino.
Oceanos, arrebatamentos de ondas
Estas canoas, a alma jovem,
Constelação de menino
Mil embarcações para meu destino.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 22/05/2008
Código do texto: T1000754
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
8/5/08

Rio das Velhas/ Minas Gerais.
"Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres; moços e velhos; pobres e ricos; nobres e plebeus; seculares, clérigos e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm, no Brasil, convento nem casa."
(Do jesuíta André João Antonil, em ‘Cultura e Opulência do Brasil’, 1711)
"O Rio das Velhas lambe casas velhas/ casas encardidas…"
(Carlos Drummond de Andrade)
Bibliografia: in "Minas colonial", Efecê Editora S.A [s.d.]
Leitura recomendada
pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros.
Campinas, é outono de 2008.
23/3/08

Foto do poeta e escritor português Mário de Sá-Carneiro (1890/1916)
"Creia, meu querido Fernando Pessoa, perdamos por completo as ilusões: eu toco o fim - um fim embandeirado, mas em todo o caso um limite. Acabei já - acabei após a minha chegada aqui [Paris]. Hoje sou o embalsamamento de mim próprio. Não tenho estados de alma, nem os posso ter já porque dentro de mim há algodão em rama ( o algodão em rama que há dentro de animais naturalizados)… Estados de alma, ânsias, tristezas, ideais, grandes torturas de que saíam os meus livros tudo isso acabou… Ilusões de glória, de ‘espanto’ já não existem em mim. Entusiasmos do que sou, tão pouco, porque demais sei o que sou. Sou o que quero - o que queria Ser; mas sei que o sou. Logo…"
(SÁ-CARNEIRO, Mário de. Correspondência com Fernando Pessoa/ Mário de Sá-Carneiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.)
Leitura recomendada
pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros.
Campinas, é Páscoa de 2008.
19/2/08

LIVRO DE JÓ
Ilustração de William Blake
O SOFRIMENTO
Quando aflora o sofrimento,
não é em vão.
Vem da ginástica da angústia
que realizamos todos os dias.
Quando vinga a vida,
vigia a sentinela do Todo Poderoso.
E as árvores dão seu viço.
O brilho deixa de ser mortiço,
quando aflora o sofrimento,
aí nós sabemos
o quanto é difícil sofrer.
Sofrer por viver. Sofrer dificuldades.
Sofrer amores desfeitos.
Sofrer os nossos defeitos.
O sofrimento que nos pervaga
todos os dias e anuncia
a acústica do morrer
na libertação.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é fevereiro de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/02/2008
Código do texto: T865950
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
22/1/08

PRIMAVERA
por Julio Vila y Prades
PRIMAVERA
Quando a primavera florir,
num diapasão de harmonia,
quem sabe lá um sorriso será maior.
E as flores constantes,
encastelando os umbrais…
Poderá então haver caminhos
para os náufragos.
Quando se possível florirem as rosas,
uma turbulência de vida poderá
surgir a cada instante de vida.
Então as névoas do desespero terão passado.
O encontro matutino com a felicidade…
se surgisse, que bem seria agora.
Porém, tudo depende de uma possibilidade.
De erguer os braços em favor de alguém,
quando a primavera florir tão bem.
Primavera espaço no compasso
de novas harmonias.
Quando a primavera florir…
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é janeiro-verão de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 22/01/2008
Código do texto: T828244
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
14/1/08

PIERROT
de Pablo Picasso
VIAJANTE
Viajante das antigas eras.
Queria ser o que foram meus pais.
Caminho no presságio infindo
de um amanhã que não chega.
Boreal não se reconhece na alfombra
aziaga da angústia.
Inclino as vestes no amanhecer escondido
de um dia qualquer.
Visto-me além túmulo
como lírio qualquer.
Caminho na pressa
infinda de não contar com o amanhã.
Reconheço um pesado passado de flamas e trevas.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é janeiro de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 14/01/2008
Código do texto: T816429
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26/12/07

MURO
Ruirão os muros que nos separam.
O ódio há de ser aplacado
como pedra em pó.
As muralhas cairão como folhas,
por um sopro.
O dia será verdadeiro,
mas quando?
Muro e murro:
é esta a lei do sistema.
Lua e sol:
é este o dia-a-dia
que nos apresentam.
É rumorejar e esperar Jesus…
A suma libertação.
Os castiçais de ouro estão aí…
Os postais elegantes estão aí…
E a fome, o desamparo
e o desespero também,
mas sempre brilhará a estrela de Belém,
talvez trazendo um pingo
de acalanto e amor aos nossos corações.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é NATAL de 2007.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 26/12/2007
Código do texto: T792409
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26/11/07

Foto do escritor MILAN KUNDERA
O uniforme é o que não escolhemos, o que nos é determinado; a certeza do universal diante da precariedade do individual. Quando os valores, antigamente tão seguros, são questionados e se afastam, de cabeça baixa, aquele que não sabe viver sem eles (sem fidelidade, sem família, sem pátria, sem disciplina, sem amor) se cinge na universalidade de seu uniforme até o último botão como se este uniforme ainda fosse o último vestígio da transcendência capaz de protegê-lo contra o frio do futuro, onde não haverá mais nada a respeitar.
(Milan KUNDERA. A Arte do Romance. Tradução Teresa Bulhões C. de Fonseca, Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.)
Leitura recomendada
pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é primavera de 2007.
30/10/07

BLACK MAGIC
por René Magritte
Lusco-fusco
no aroma do orvalho.
Lusco-fusco pelos galhos
das tralhas
que carregamos pelas costas.
Lusco-fusco de cada dia
que se aproxima numa lasca
de gente que sou.
Lusco-fusco que nos abrange
o mínimo de nós.
Lusco-fusco
no aroma das árvores
ressuscitadas de vida.
Na casca de trigo
a esperança de um amigo.
Lusco-fusco traga-nos
um dia pelo preço de cada mês.
Lusco-fusco da rotina de toda vez.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2007
Código do texto: T716501
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23/10/07

BLUE NUDE
por Henri Matisse
RESPALDO EM CASCATA
Respaldo em cascata
é assim que se mata,
no caldo da lata,
na fome da causa.
Respaldo em cascata
encostar-se sempre,
esperando a linha do horizonte.
Respaldo do ontem,
cantiga em prece,
logo amanhece
e vem a desdita
do respaldo em comandita.
Respaldo em enleios,
veias, sangue,
mundo em combustão.
Respaldo no carro,
a chave de ignição.
Respaldo em candeia,
cada dia por cadeia,
eis a questão…
Respaldo no cume da montanha,
onde o lume não vagueia.
Respaldo em cadeia,
carência do íntimo,
vivência do ínfimo.
Respaldo por tudo
e tudo fica mudo.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 23/10/2007
Código do texto: T706345
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.