Arquivinhos

Blog voltado à disseminação da produção intelectual do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, sobretudo no que se refere às seguintes áreas do saber: Filosofia, Poética, História, Literatura e Crítica Literária. Inclue-se, também, a poética de FERNANDO MEDEIROS.

9/4/07

GIORDANO BRUNO

Foto da Biblioteca "Giordano Bruno", en Córdoba

“E amanhã a chuva levará
O sangue que a luta deixou derramar
Na pele a dor do aço tão cruel
Jamais a nossa voz vai calar

Um ato assim pode acabar
Com uma vida e nada mais
Porque nem mesmo a violência
Destrói ideais

Tem gente que não sente
Que o mundo assim
Ficará frágil demais

Choro eu e você
E o mundo também, e o mundo também
Choro eu e você
Que fragilidade, que fragilidade…”

(Letras da bela canção “Frágil”, do cantor e compositor Sting)

Filósofo, astrônomo, matemático, estudioso da memória humana, enfim, um autêntico pensador, o monge italiano Giordano Bruno [1548-1600] destacou-se na história do pensamento ocidental como um mártir na defesa da liberdade de idéias contra os dogmatismos da Igreja Católica em fins da Baixa Idade Média – portanto, em época de horrores instaurados pela Inquisição.
Pregando idéias inconcebíveis para o poder eclesiástico daquela ocasião – idéias, aliás, precursoras do pensamento filosófico moderno -, Giordano Bruno, na qualidade de defensor da magia natural, da reencarnação e da astrologia, não demorou para cair nas malhas da Santa Inquisição. Assim, morreu queimado na cidade de Roma, em 1600.
Por conseguinte, dando seqüência aos disparos contra a intolerância e a opressão, o diretor do filme “Giordano Bruno”, Giuliano Montaldo, consegue extrapolar no personagem Giordano Bruno (personagem histórico interpretado, de forma intensa, pelo ator engajado Gian Maria Volonté) a mera história da condenação de um herege renascentista. Nesse sentido, o objetivo de Montaldo é, na verdade, discutir todas as formas de inquisições de qualquer tempo: nisto consiste a atualidade do filme, consoante palavras do crítico cinematográfico Rubem Ewald Filho.
De outra parte, memorável é, no referido filme, a passagem em que Giordano Bruno é acusado de comodismo por um amigo, por tão-somente defender os prazeres humanos. Giordano Bruno, contrariado, responde, então, nos seguintes termos: “_ A filosofia jamais é cômoda.”; verdade, aliás, que Bruno experimentaria na carne e que viria a lhe custar a própria vida.
Por fim, todo o sofrimento de Giordano Bruno é uma representação ou um retrato do martírio pelo livre pensar.
“Giordano Bruno” é uma produção cinematográfica franco-italiana, de 1974. A direção do filme é de Giuliano Montaldo. O elenco é composto pelos seguintes atores e atrizes: Gian Maria Volonté, Hans Christian Blech, Mathieu Carrière, Charlotte Rampling, dentre outros.


SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 28/12/2005
Código do texto: T91432

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

criado por cas24038137    19:39 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

2/4/07

ANA E OS LOBOS

                                                                     

     “Ana e os Lobos” (1972) é um marco na história do cinema latino na medida em que revelou, para os brasileiros, um dos mais importantes diretores do cinema espanhol dos últimos tempos; refiro-me ao cineasta Carlos Saura.
     A personagem Ana (Geraldine Chaplin, filha de Charles Chaplin e ex-mulher do diretor Carlos Saura) é a governanta que chega à mansão de uma velha e decadente família burguesa espanhola. Ali, ela se envolve com três irmãos: o místico Fernando, que se isola do universo social qual um eremita e, além disso, é predestinado a transes de levitação; José, um colecionador de relíquias do “exército que governa” a mansão com arrogância e prepotência; e Juan, escrevinhador de cartas obscenas, que tenta, a todo custo, seduzir Ana; aliás, cada um dos irmãos, de alguma maneira, pretende possuí-la. Juan deseja o corpo de Ana, Fernando quer cortar os cabelos da governanta, e José pretende dominá-la a exemplo de um soldado.
     É preciso ressaltar que o roteiro de “Ana e os Lobos” ficou, por mais de um ano, proibido pela polícia e pela censura da ditadura do general Francisco Franco, que varreu o território espanhol de 1939 a 1975. Uma das maneiras para se conferir o filme é observá-lo como um quadro alegórico da Espanha franquista. Nesse sentido, os personagens-protagonistas, em seu conjunto, representam, alegoricamente, por um lado, as três grandes forças que dominavam a Espanha de Franco: Fernando representa a Igreja Católica; José representa o exército; e Juan representa a sexualidade reprimida. De outra parte, Ana, a vítima inocente, o cordeirinho, representa o próprio povo espanhol sob o jugo da ditadura franquista.
     O cineasta Carlos Saura não esconde que detesta os “três lobos”, buscando, sem qualquer piedade, estereotipar cada um dos irmãos. José, por exemplo, foi criado como menina até a primeira comunhão; na idade adulta, adquiri o hábito de travestir-se.
     “Ana e os Lobos” é arte cinematográfica e uma lição de como dizer e contestar um estado de coisas indiretamente mediante o emprego da linguagem alegórica; exemplos desse recurso procedente do tropos lingüístico proliferam na poética musical de Chico Buarque de Holanda, cujo elenco de canções de renome (sobretudo entre o final dos anos 60 e durante os anos 70) obtive (pasmem, quanto a esta bela contradição!) grande sucesso durante a vigência das indecorosas censuras instauradas pela ditadura militar no Brasil.

     Por fim, como já afirmaram, “Ana e os Lobos” é um filme que impressiona, comove e sensibiliza. É preciso conferi-lo! Sobretudo, nós, brasileiros, que precisamos reavivar a memória daquilo que aconteceu, num passado recente, em nosso país: dos brasileiros que sofreram muitas coisas por nós, dos nossos irmãos que participaram do sofrimento das torturas, dos choques elétricos ou amarrados em “pau-de-arara”… de todos os inocentes que, por nós, morreram nas prisões de um Brasil-Estado Autoritário, de uma Nação Demente, de um Brasil-Casa-dos-Horrores do DOPS, de um Estado Assassino, de uma Nação-Latrina regida pela podridão do autoritarismo, de um “Brasil Nunca Mais!”!
     “Ana e os Lobos” é uma produção espanhola presenteada com a participação de atores e atrizes espanhóis, tais como, Fernando Fernan Gómez, José Vivo, José Maria Prada, Rafaela Aparício, além d’outros.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP

Campinas, primavera de 2005


SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 21/11/2005
Código do texto: T74228

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

criado por cas24038137    18:41 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

15/3/07

FANNY E ALEXANDER; Parte II

Cena do filme

FANNY E ALEXANDRE

 

“Alexander: Quem está atrás da porta?
Voz: É Deus que está aqui, atrás da porta.
Alexander: E não pode avançar um pouco mais?
Voz: Nenhum ser vivo deve ver o rosto de Deus.
Alexander: E o que é que você quer de mim?
Voz: Quero apenas comprovar que eu existo.
Alexander: Fico-lhe muito agradecido. Obrigadinho.
Voz: Pra mim, você não passa de um grão de poeira sem importância nenhuma. Sabia disso?
Alexander: Não.
Voz: Aliás, você é muito mau para sua irmã e seus pais, descarado diante dos professores e está sempre com pensamento ruins. Na realidade, não entendo por que é que eu deixo que você continue a viver, Alexander!
Alexander: Não?
Voz: O Sagrado! Alexander! (…) Deus é o mundo e o mundo é Deus. É muito simples.
Alexander: Eu peço muitas desculpas, mas se de fato é como você diz, então, eu também sou Deus!
Voz: Você não é Deus, de jeito nenhum. Você é apenas um pedacinho de merda, cheio de impertinência.
Alexander: Posso afirmar que sou menos impertinente que Deus…”

(Ingmar BERGMAN. Fanny e Alexander. RJ: Editorial Nórdica, 1985)

Ingmar Bergman dirigiu, também, “O Sétimo Selo” (1956), “Morangos Silvestres” (1957), “Gritos e Sussurros” (1973), “Cenas de um Casamento” (1974), “Face a Face” (1976) dentre outras obras-primas.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005

criado por cas24038137    13:58 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

FANNY E ALEXANDER; Parte I

Cena do filme

FANNY E ALEXANDER

                                                            Ao dr. Renato Ienny e Kátia.

 

“Ela sorriu e, após breve hesitação, respondeu: _ Agradecer ao destino, penso eu, por termos escapado incólumes de todas as aventuras - as reais e as sonhadas.
_ Você tem certeza de que é o que você quer também?
_ Estou tão certa quanto suspeito que a realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida não significa sua verdade mais íntima.
_ Nem sonho algum - suspirou Fridolin baixinho - é totalmente sonho…”
(Arthur SCHNITZLER. Breve Romance de Sonho. RJ;SP: Biblioteca Folha,2003)

O filme “Fanny e Alexander”, do genial cineasta sueco Ingmar Bergman, é considerado uma obra-prima e uma de suas mais brilhantes produções cinematográficas, pois, num profundo mergulho sobre a alma humana, refletiu, com delicadeza e com perfeccionismo, sobre os enigmas, os prazeres e os terrores do universo infantil. Com 3 horas e 8 minutos de duração, a linha fundamental de “Fanny e Alexander” é auto-biográfica (e isto é flagrante no filme!). As crianças do filme são encantadoras e inseparáveis: Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve); a casa abastada onde ambas vivem é extraordinariamente burguesa. A avó, uma atriz riquíssima, é uma personagem quase mítica, que habita o apartamento de baixo. Em toda a casa há um mundo feminino que tudo domina. O teatro é um lugar onde as crianças brincam e procuram refúgio. O menino Alexander é, sem dúvida, um alter-ego de Bergman, experienciando o puritanismo hipócrita do pastor Vergerus (Jan Malmsipe), que vem a se tornar padrasto de Alexander, em contraponto aos prazeres mundanos que Alexander encontra nas saborosas refeições, no bom humor, na liberação, enfim, no bem viver da casa da avó. Vale ressaltar que o pai de Ingmar Bergman era pastor luterano, tendo castigado severamente o cineasta na infância.
Vários temas estão presentes no filme: amor, ódio, paixão, ressentimento, religião, angústia, neurose familiar, inveja, morte etc. entrecruzados de forma fulgurante com magia, humor e sensibilidade, celebrando, desse modo, o amor de Bergman pela arte cinematográfica. Para quem a arte, a obra e a vida são uma mesma e única coisa, Bergman resume “Fanny e Alexander” com essas belas palavras: “Penso nos meus tempos de menino com prazer e curiosidade (…) Minhas horas e meus dias viviam repletos de coisas interessantes, cenários inesperados, instantes mágicos. Ainda hoje posso percorrer a paisagem da minha infância e sentir de novo todo aquele passado de luzes, aromas, pessoas, aposentos, instantes, gestos, inflexões, vozes, objetos (…) O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (…) Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real…”

Prof. Dr. Sílvio Medeiros/ Campinas, é primavera de 2005.

criado por cas24038137    13:49 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

12/3/07

ASAS DO DESEJO

Cena do filme ASAS DO DESEJO

O filme “Asas do Desejo” — rodado em 1987 —, do cineasta alemão Wim Wenders, conta uma história de anjos, de Anjos da Guarda. Com roteiro de Wim Wenders e Peter Handke (poeta alemão contemporâneo), a trama do filme foi inspirada nos poemas de Rainer Marie Rilke (“Elegias a Duíno”).
O enredo do filme apresenta uma dupla de anjos — anjo Damiel (Bruno Ganz) e anjo Cassiel (Otto Sander) — sobrevoando o céu da cidade de Berlim; observando o dia-a-dia dos seres humanos e “ouvindo”, com curiosidade e admiração, os pensamentos e as angústias de berlinenses mergulhados na cotidianidade. Vistos somente por crianças e ex-anjos, com efeito, Damiel e Cassiel, ambos melancólicos, contemplam uma Berlim — metrópole européia que insiste em experimentar o impossível vôo da modernidade — mergulhada num campo de ruínas: ora uma Berlim nazista, ora pós-guerra, ora pós-muro. São anjos que se entristecem com a desordem afetiva e material dos habitantes que ocupam o centro das catástrofes do século XX. Todavia, apesar de tudo, os anjos desejam viver as experiências dos humanos. A escolha de Berlim como cenário de “Asas do Desejo” deve-se ao fato de que, consoante Wenders: “… nenhuma outra cidade é tão forte como símbolo, quanto lugar de sobrevivência. Berlim é tão dividida como nossa época, como são homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres”.
Parte do filme é rodado em preto-e-branco (o que vêem os anjos); ele só ganha cor quando o amor entra em cena, isto é, quando o anjo Damiel torna-se humano por amor a uma mulher, isto é, por uma trapezista de circo, de beleza angelical, chamada Marion (Solveig Dommartin). É deste modo que o anjo apaixonado decide tomar parte da vida humana. No final do filme, Damiel, na condição de humano, murmura as seguintes palavras: “ _ Eu sei, agora, o que nenhum anjo sabe”. Bela metáfora, aliás, para expressar a busca da imortalidade no desejo. Por outro lado, a trapezista Marion conquista a condição angelical ao perceber a efemeridade das coisas mundanas.
A enigmática, perturbadora e poética trilha sonora do filme conta com a participação do roqueiro Nick Cave!!
Em 1987, “Asas do Desejo” foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. Recentemente, o cenário de Berlim deslocou-se para Los Angeles. Refiro-me ao filme “Cidade dos Anjos” (City of Angels), versão comercial americana de “Asas do Desejo”. No Brasil, “Asas do Desejo” jamais foi exibido no circuito comercial de cinemas.

Cena do filme ASAS DO DESEJO

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005

criado por cas24038137    10:37 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

9/3/07

ENTRE DOIS AMORES; II

Por fim, confesso: não resisto! e apresento – peço licença e paciência aos leitores - um pouco mais da encantatória poética de Isak Dinesen, inscrita nas páginas inaugurais de “A Fazenda Africana”. Confesso, ainda, que esta escritura (talvez um pouco longa, caros leitores), grávida das obrigatórias metáforas, veio a se tornar “um risco” permanente em minha memória:

“TIVE UMA fazenda na África, aos pés das montanhas NGONG.
O equador cruza estes altiplanos, cento e sessenta quilômetros ao norte, e a fazenda situava-se a uma altitude superior a dois mil metros. Durante o dia, sentia-se a altitude e a proximidade do sol, mas as madrugadas e as tardes eram límpidas, e as noites frias.
A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem que não tinha igual no mundo. Não havia ali nada que fosse supérfluo ou luxuriante: era a África destilada através de dois mil metros de altitude, perfazendo a forte e refinada essência de um continente. As cores eram secas e queimadas como as cores de uma cerâmica. As árvores com a sua folhagem leve e delicada tinham uma estrutura diferente das árvores européias; não se formavam em arcos ou cúpulas, mas em camadas horizontais, fazendo com que, altas e solitárias, se assemelhassem a palmeiras, ou então, heróicas e românticas, se parecessem com navios de velas desfraldadas; nas extremidades das florestas tinha-se, além disso, a estranha impressão de que as árvores tremulavam ligeiramente (…) Todas as flores que se viam nas planícies ou nas trepadeiras e lianas da floresta nativa eram diminutas como flores das dunas, à exceção das grandes, maciços e aromáticos lírios, que floresciam nas planícies no início da longa estação das chuvas. As vistas eram imensas. Tudo que se via dava uma impressão de grandeza, liberdade e inigualável nobreza (…) No pino do dia o ar se corporificava sobre a terra, como se fosse uma chama viva; cintilava, ondeava e brilhava como água corrente, espelhava e dobrava os objetos, e criava grandes miragens de Fada Morgana. Lá, naquelas altitudes, respirava-se com facilidade, inalando segurança vital e leveza de coração. Nos altiplanos, acordava-se de manhã e pensava-se: ‘AQUI ESTOU, ONDE DEVIA ESTAR’.”

Acolhendo palavras de Hannah Arendt, brado, finalmente, a minha exclamação admirativa:
_ Bravo, Dinesen! Enigmática, sibila, feiticeira, caçadora de leões e de palavras, plantadora de café, um autêntico paradoxo! Isak, criadora de paradoxos!

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2005

criado por cas24038137    18:03 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

ENTRE DOIS AMORES; I

ENTRE DOIS AMORES

À memória da minha querida mãe, Vera de Almeida Medeiros (vovó Vera) -  "_ Mamãe, nitschewo…"

“Todas as dores podem ser suportadas se você as puser numa história ou contar uma história sobre elas.”  (Isak Dinesen)

“_ I had a farm in Africa…” (“_ Tive uma fazenda na África…”). Com esta frase é inaugurado o sublime concerto da escritora dinamarquesa Isak Dinesen [1885-1963]. Refiro-me ao livro “A Fazenda Africana” (Out of Africa), uma sublime narrativa que, por muitos, é considerada autobiográfica, e que deu origem ao filme “Entre Dois Amores”, grande sucesso cinematográfico de 1985, o qual recebeu 7 Oscars, inclusive o de melhor filme.
O filme é baseado na vida da baronesa dinamarquesa Karen Blixen (Meryl Streep) — cujo epíteto é Isak Dinesen —, que se casou com o irmão (Klaus M. Brandmuer) do seu amante, Dennys Finch-Hatton (Robert Redford). A história se passa entre 1918 e 1931.
Movida pela aventura, a aristocrata Isak Dinesen deixa a Dinamarca e adquire uma fazenda no Quênia, ao leste da selvagem África. O Quênia de Dinesen é uma espécie de “Paraíso Perdido” (na verdade, na era nenhum paraíso!) dos românticos daquela ocasião, isto é, daqueles que não aceitavam o fim das coisas sem angústia, sem um comportamento melancólico; daqueles que, em contraponto ao final do século XIX, marcado pela desarmonia entre o homem e a natureza - promovida pela consolidação da sociedade industrial -, buscam experienciar as lembranças do Paraíso. Com efeito, trata-se dos insatisfeitos que procuram transformar a vida em lenda. Desse modo, entre a plantação de café, a solidão e as aventuras dos safáris, a baronesa Blixen não necessita de nenhum protetor; ela quer o compromisso, mas não abre mão da liberdade pessoal. Porém, tal ambigüidade encarrega-se de levá-la a experimentar emoções complexas, arrebatadoras. Dennys, um aristocrata inglês, visita freqüente na fazenda, além do prazer de voar e caçar, também apreciava escutar - ao som de Mozart - as histórias narradas por Isak Dinesen. É bom lembrar que Isak Dinesen referiu-se com desprezo à arte do romance, que está sempre a salvaguardar o bem estar dos personagens, sacrificando, dessa forma, a história pelo personagem. Ao contrário disso, Isak Dinesen opunha a arte da narrativa, que sacrifica tudo, exceto a si mesma. A partir daí, o que nós podemos apreciar é a bela história de uma paixão entre Dennys e Dinesen, narrada com bastante cuidado e requinte (no sentido de apontar não tão-somente para a dor ou para a felicidade, mas para a sensibilidade de tolerar todas as contradições da vida), que se encerra quando a plantação de café faliu e o sonho de Isak Dinesen é findo - de maneira trágica! - com a morte, num desastre de avião, do amante Dennys. Doente, pois contraíra sífilis devido à infidelidade do marido, Dinesen retorna para a Dinamarca e passa a escrever “A Fazenda Africana”, um autêntico romance épico-moderno no qual a escritora — qual uma Scherazade do século XX — se põe a relatar todas as experiências que vivenciara na África. O conselho explícito que palpita nas páginas desta autêntica pastoral (talvez, a melhor pastoral em prosa de nossa época, do ponto de vista da filósofa alemã Hannah Arendt) nos garante que é possível sobrevivermos às perdas mais traumáticas e, mais que isso, transcendê-las, caso contemos uma história sobre elas. O lugar que essas perdas ocupam na narrativa de Isak Dinesen é indicado na primeira frase da referida pastoral: “_ Tive uma fazenda na África…”. Nesse sentido, a narrativa de Dinesen pode ser considerada redentora, já que a narradora sofre uma “morte exemplar” para poder guardar, para todos nós, a promessa da liberdade espiritual. Com efeito, consoante Hannah Arendt, Isak Dinesen é Scherazade, pois esta promessa é a liberdade - nas páginas das “Mil e Uma Noites” - que Scherazade mostra ao Sultão.
A adaptação do livro para o cinema, conforme comentários do crítico de cinema Rubens Ewald Filho, havia sido planejada nos anos 70 por Orson Welles e David Lean, mas só foi realizada na década seguinte pelo diretor Sidney Pollack. A fotografia do filme é belíssima e a trilha sonora, regida pelo maestro John Barry, é composta de variações sobre o Concerto para Clarinete e Orquestra (K.622), de Wolfgang Amadeus Mozart: o resultado é extraordinário! Em 1985, fez por merecer o Oscar que lhe foi concedida de melhor trilha musical.
Por fim, nas palavras do belíssimo texto biográfico de Judith Thurman (“A vida de Isak Dinesen – Karen Blixen”. RJ: Editora Record, 1982), a experiência africana para Isak Dinesen revelar-se-ia de fundamental importância para a formação da futura ficcionista. “Ela nos demonstra [em ‘A Fazenda Africana’] (…) o que um espírito aberto e sensível é capaz de realizar em meios que muitas vezes lhe são adversos e estranhos”, sublinha Thurman.
Abaixo, segue um belo trecho de “A Fazenda Africana”, obra prima da literatura ocidental:
“Dennys não tinha nenhum outro lar na África além da fazenda, vivia em minha casa no intervalo entre seus safáris, e, quando ele voltava, a casa anunciava o que havia nela; ela falava — como falam os cafezais, quando florescem com os primeiros aguaceiros da estão das chuvas (…) então, as coisas da fazenda todas falavam o que realmente eram (…) e quando Dennys vinha à fazenda, perguntaria: ‘Você tem uma história?’ ”.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS

Campinas, é primavera de 2005

criado por cas24038137    17:39 — Arquivado em: Resenha (Cinema)
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://arke.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.