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Blog voltado à disseminação da produção intelectual do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, sobretudo no que se refere às seguintes áreas do saber: Filosofia, Poética, História, Literatura e Crítica Literária. Inclue-se, também, a poética de FERNANDO MEDEIROS.

26/12/07

MURO

MURO

Ruirão os muros que nos separam.
O ódio há de ser aplacado
como pedra em pó.
As muralhas cairão como folhas,
por um sopro.
O dia será verdadeiro,
mas quando?
Muro e murro:
é esta a lei do sistema.
Lua e sol:
é este o dia-a-dia
que nos apresentam.
É rumorejar e esperar Jesus…
A suma libertação.
Os castiçais de ouro estão aí…
Os postais elegantes estão aí…
E a fome, o desamparo
e o desespero também,
mas sempre brilhará a estrela de Belém,
talvez trazendo um pingo
de acalanto e amor aos nossos corações.

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é NATAL de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 26/12/2007
Código do texto: T792409

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30/10/07

LUSCO FUSCO

BLACK MAGIC

por René Magritte

Lusco-fusco
no aroma do orvalho.
Lusco-fusco pelos galhos
das tralhas
que carregamos pelas costas.
Lusco-fusco de cada dia
que se aproxima numa lasca
de gente que sou.
Lusco-fusco que nos abrange
o mínimo de nós.
Lusco-fusco
no aroma das árvores
ressuscitadas de vida.
Na casca de trigo
a esperança de um amigo.
Lusco-fusco traga-nos
um dia pelo preço de cada mês.
Lusco-fusco da rotina de toda vez.

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2007
Código do texto: T716501

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23/10/07

RESPALDO EM CASCATA

BLUE NUDE

por Henri Matisse

RESPALDO EM CASCATA

Respaldo em cascata
é assim que se mata,
no caldo da lata,
na fome da causa.
Respaldo em cascata
encostar-se sempre,
esperando a linha do horizonte.
Respaldo do ontem,
cantiga em prece,
logo amanhece
e vem a desdita
do respaldo em comandita.
Respaldo em enleios,
veias, sangue,
mundo em combustão.
Respaldo no carro,
a chave de ignição.
Respaldo em candeia,
cada dia por cadeia,
eis a questão…
Respaldo no cume da montanha,
onde o lume não vagueia.
Respaldo em cadeia,
carência do íntimo,
vivência do ínfimo.
Respaldo por tudo
e tudo fica mudo.

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 23/10/2007
Código do texto: T706345

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16/10/07

COMPASSO

AFRESCO CAPELA SISTINA

por Michelangelo

ESMOLA À ALVORADA

Esmola à alvorada,
o caminho é íngreme,
a luta constante
e o salto ornamental:
lá se foi o vento oriental.
Ficaram pedras de areia
na confluência do nada.
Esmola à alvorada
é só o que se pode dar
diante de tanto desamor.
Viola ao redentor.
Buscar um pingo de lágrima,
quando se aumenta a dor.
Esmola à alvorada,
caminho passo a passo
num mundo em ebulição.
A revolução das cores
dos meus olhos
defronta-se com sinistros sonhos
que revelam perdição.
Larga é a porta da perdição.
Esmola à alvorada
para num lapso de espreita
encontrar de novo a porta estreita.
Esmola à alvorada,
meu corpo tornou-se…

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 16/10/2007
Código do texto: T696574

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12/10/07

NUANÇAS MULTICORES

PAINTING 1934

por Paul Klee

NUANÇAS MULTICORES

Nuanças multicores
que tais e mais flores
que simbolizam jardins
encantados de ardores.
Nuanças invernais
que representam o frio de todos.
Os continentes
como o calor de todos os trópicos.
Mudanças de telescópio
a representar andanças
de cosmonautas.
Nuanças de arco íris
reverdecendo selvas que
se transformarão em grandes
gerânios.
Gerúndio vitória régia …
Gerúndio – verso
em meio a nuanças de
meus amores.
Andanças de visionários
a questionar seus salários eternos.
Nuanças dos sem temores,
livres acrobatas,
dos circos inimagináveis dos sonhos.
Nuanças dos mais risonhos,
da vida em conjunção com
a arte pintada em flores.
Nuanças de meus amores…

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 12/10/2007
Código do texto: T691139

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2/10/07

NASCER JUSTICEIRO

JARDIM DOS POETAS

por Vincent Van Gogh

NASCER JUSTICEIRO

Como a semente santa que germina o ressuscitar,
como uma harmônica que jamais cantará,
como o mais belo sentimento oprimido no coração
é nascer um forte! é nascer um justiceiro!

Nascer eternamente um revoltado prisioneiro,
um decepcionado com o mundo sem benção,
nascer com a vontade imensa de repartir o pão
é nascer justiceiro! é não ter consideração…

Caminho gélido inatingível pervaga o lutador,
e sua justiça amargando o coração humano
que deseja o belo fim do desconhecimento e dor.

Por isso, nascer justiceiro é possuir um sol perdedor,
é ser caluniado, é ter um peito insatisfeito e insano.
Por isso, nascer justiceiro é nascer sofredor…

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 02/10/2007
Código do texto: T677129

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25/9/07

DIURNO

LA MÉMOIRE
René Magritte

DIURNO

Diurno
Um som
Um aspecto
Um espectro
Cintila no som
Soturno
Como uma réstia
De treva
Uma conversa
Que renasce o amigo
Um espectro
Que ressuscita no abrigo.


FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 25/09/2007
Código do texto: T667524

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12/9/07

CAMINHO AO NORTE

GRANDE PINO

Cezzane

CAMINHO AO NORTE

Um caminho ao norte
que talvez nos leve
ao sul da concórdia.
Uma nova alvorada
de dias em floras.
Uma sombra de amor renascido
na alfombra do desejo polido.
Revestir-se de sentido eterno.
E revelar-se no ontem…
Do dia em presságio
de uma aurora em plena primavera.
Um caminho ao norte
que nos leve a leste
de fronteiras insondáveis…
De novas descobertas,
novo sentido além.
A prosperidade de um dia de luta…

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é setembro de 2007.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 12/09/2007
Código do texto: T649002

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11/8/07

AQUÁRIO

PÁSSARO NO AQUÁRIO

de Juraci Ferreira Dantas

AQUÁRIO

Possa o aquário das sombras
revelar-me as mansidões
e o suplício da incongruência.
Sinto que fico no arraial, risonho…
Um longo bloqueio de batalha asquerosa
faz da rosa um susto no qual me indago.
Mais do que tudo isto,
vou através de um aquário,
e na vitrina comercial já rebaixada
é constituído em mim um arsenal
clandestino.
Possa o sino deslanchar seu desprendimento
ao encontro de meu sentimento,
forma-se, assim, o conjunto do meu encantamento.
Passa a amada e eu no aquário,
ela sorri, sabe da minha tragédia.
Deixa estar, pois venceremos,
um território invisível me prediz
onde a luta é sustentável,
irrevogável
o novo fim, a revelação.
É o aquário um resumo de mar comercializado.
As palavras giram neste mar-aquário.
Deixa estar, pois romperemos, e
nenhuma lembrança de mar perdido
sob novas lamparinas
em cada riso incandescente do poeta vitorioso…

FERNANDO MEDEIROS

Campinas, é inverno de 2007.

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2/8/07

PRAZER ERÓTICO

Mujer en camisa,

de Pablo Picasso.

PRAZER ERÓTICO

Esta vida me entregou injustiças,
loucuras e tantos pesadelos.
Obrigou-me a valorizar minhas cobiças,
a chorar pelos meus apelos.
Mas a vida me deu um presente
que é o seu corpo escultural!
repleto de sensualidade fervente
no gozo completo mais natural.
Ofereceu-me os seus carinhos sábios
que me levam ao paraíso das visões,
o prazer de ter os seus seios nos lábios
para me soltar e não me lembrar, por um minuto sequer,
das decepções.
A vida me entregou a maldade,
os aviltamentos e tantos outros desconcertos d’alma,
mas me deu uma forma de refúgio
que é a sua pele macia, os seus beijos orvalhados
entre as leves areias e a brisa do mar.
Eterno é este prazer que sacia a sede,
que nos une entre afagos e carícias,
que nos une em uma brilhante rede
sob o universo que vivifica as doces delícias.
Tão atraente e renascente é este prazer
que não deve trazer prisões, nem malícias,
e sim a paz do deleite que nos faz desprender
tanto da hipocrisia quanto das tradições empoeiradas
que só reprimem o prazer, mas não a corrupção a que se entregaram;
quanto das devassidões de carnes enlameadas
que sujam a beleza do sexo com sua tara.
A vida me entregou tantos dissabores
que seria imensa a conta dos meus penares.
Mas deu a sensualidade dos nossos amores,
o prazer indefinido sobre a paz de todos os cantares,
que tem o objetivo maravilhoso
de formar uma outra geração, sem retrocesso,
para que o universo continue grandioso,
elaborando todo o seu iluminado processo…


FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é inverno de 2007.

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