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MANHÃ INESQUECÍVEL
Acordei e vi o céu todo dourado,
um amanhecer tão belo nunca tinha visto,
escondi minha amargura e fiquei maravilhado,
uma estranha esperança brotou em minhas mãos.
Minha vida como sempre permanecia triste,
mas naquela manhã senti algo diferente,
aquele raiar de dia tinha um esplendor
que reina apenas num astro reluzente.
Era como a voz de Deus que me acordava
para eu conhecer um céu todo alaranjado
pelos primeiros raios do sol sublime
que se erguia levemente abençoado.
Que estranha emoção me invadiu
às cinco horas da manhã daquele domingo.
A emoção de um dia ver meu coração febril
se descortinar tão belamente pelas paragens
destes meus universos tão macerados.
Quando olhei aquele domingo renascendo,
aquele céu todo alaranjado na abóbada,
só pude sentir uma estranha esperança
e esquecer que era imperfeito e decaído,
que eu era louco e estava abandonado.
Por um pouco pude me esquecer
que eu perseguia as pessoas
e elas cruelmente também me perseguiam,
me feriam, me martirizavam.
Esqueci de tudo...
Olhei tão-somente aquela manhã,
e como não me lembrasse mais do passado,
me esperancei.
Pensei que ainda poderia vir uma vida de paz e alegria.
Como um ingênuo... me esperancei. Esqueci do sarcasmo,
do cinismo,
sentimentos que mostram a decadência de um homem.
Esqueci dos aborrecimentos e abri meu velho rosto enraivecido
para aquela doce manhã dourada de domingo,
que trazia para mim um prêmio: era a estranha esperança
de nascer meus ideais, meus sentimentos;
o estranho ímpeto de sonhar forte
pelo bem de uma vida há muitos anos apagada.
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/06/2008
Código do texto: T1032284
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Pastor Flautista
por Sophie Anderson
FLAUTA
Um canto de flauta um coração acalma
na noite desgostosa de minha alma.
A música é triste
e as colinas distantes.
Uma garoa coruscante
desce sobre a madrugada de todos nós.
E um canto de flauta
se ouve no ar.
Não se sabe se é Deus
que quer me esperançar
ou será satanás
que quer me matar.
É um canto triste: este da flauta,
é um trágico poema sobre a pauta,
é um grito de revolta no bacanal,
é uma morte em pleno carnaval.
Mas é uma música linda de flauta
que, tão logo me assalta,
leva os encantos de mim.
Talvez seja um anjo ruim
que me faça lembrar das desgraças
e perder a fé em todas as graças.
É o canto rude da flauta,
do inferno, da voz mais alta
que brada toda a tristeza.
O fim da encruzilhada, o ponto de chegada.
Um canto penoso de flauta
dos meus nervos salta,
é o canto da súplica,
a música recalcada
com o mundo, com o fundo de nosso abismo,
de nosso egoísmo...
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 10/06/2008
Código do texto: T1027486
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.