25/4/07
JÁ PASSOU

Ainda ontem ciclos intermináveis de lágrimas
pulverizando os olhos.
Ainda ontem cartas à mesa
e aquele jogo indesejável.
Ainda ontem o sentimento de perda
e, além de tudo mais,
a ofensiva, o tiroteio da agressão.
Ainda ontem a indeterminação
e os reflexos condicionados
na aliança implacável
com o desespero.
Ainda ontem momentos que
afunilaram a ameaça em que vivi.
E a lembrança disto tudo
é uma coisa muito negra para mim.
Por que esta consagração do sofrer?
Por que ainda ontem eu não poderia viver?
Ainda ontem eu percorri a área
onde implantava rudemente o cerne dos obstáculos.
Ainda ontem me mantive passivo
diante da adoração pela falsidade
que se farta em cada ordem
e se espalha como peste.
Ainda ontem estes aborrecimentos
que a muito custo pude passar.
Este peso invariável que não pode medir proporções,
tamanha a crueldade ameaçadora.
Ainda ontem expectativas indesejadas,
cristalizadas em temores imediatos
por motivo da obrigação
de realizar tarefas desinteressantes:
o cúmulo do mandato
extorquindo o coração
que não se interessa pelo lugar em que é obrigado
a viver e a calejar passivo.
Ainda ontem a espera refletida em cada atitude,
o fazer apenas para sair e esperar
e definitivamente partir.
Não se pode avaliar
o preço desse desespero,
o sofrimento que abala,
que ele desaba sobre toda a vida.
Ainda ontem, enfim,
este apavoramento sufocado
aguardando o fim da sentença
a desimpedir a doença.
E hoje, como se sabe,
o sentir-se leve.
E hoje, como se sabe,
a libertação instalando
palácios e simbolizando horizontes,
e o ar generoso
parece leve e sereno,
hoje, que estou liberto,
passo por cima do que restou ontem.
E hoje, como se sabe,
o ruído da desilusão
vai perdendo a sua força,
e o passado
vai encobrindo…
E, como se sabe, hoje,
digo passou,
enfim passou…
FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 25/04/2007
Código do texto: T463634
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criado por cas24038137
16:34 — Arquivado em: 

Comentário por Ana Valéria Sessa — 9 de maio de 2007 @ 20:07
Ah, esse “ainda ontem” e a densidade que ele trás, tão forte amargando lento um tempo que parece eterno. Ah, o porvir que vem leve, anunciando mais um sopro, mais um sonho, mais um gozo na atemporalidade da alegria ! Juro, eu jamais saberia traduzir isso…que beleza de construção transcrevendo esses voos da alma, tão enigmáticos. Pois é, ainda ontem… daí, coloquei uma música que diz assim: ” A tristeza é senhora/ desde que o samba é samba é assim/. a lágrima clara sobre a pele escura/ a noite a chuva que cai, lá fora/ solidão, apavora/. tudo demorando em ser tão ruim/. mas alguma coisa acontece no quando agora em mim, cantando eu mando a tristeza embora.”
beijo,
Valéria