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Blog voltado à disseminação da produção intelectual do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, sobretudo no que se refere às seguintes áreas do saber: Filosofia, Poética, História, Literatura e Crítica Literária. Inclue-se, também, a poética de FERNANDO MEDEIROS.

14/3/07

A JANGADA DO MEDUSA; Parte II

James Joyce, autor do romance "Ulisses"

 

Atravessando séculos e séculos - do tempo mítico para o tempo histórico -, o percurso do herói moderno tende a constituir-se no reverso do percurso do herói épico. Se os heróis clássicos se definem como homens de descendência divina, destacando-se dos comuns dos mortais pela coragem ou pela interpelação do auxílio divino, no alvorecer da modernidade, com a potência civilizatória engendrada pelas Revoluções Francesa e Industrial, surge um novo tipo de herói, agora secundado pela expansão ilimitada do domínio racional, tornada fundamento auto-suficiente de uma política utópica dotada de um espírito tecno-científico que se pretende muito eficaz em matéria de controle da natureza - o futuro é a terra prometida! Assim, a “deusa Razão” deseja realizar-se na história humana, denunciando tiranias e superstições e proclamando o fim das fronteiras entre os povos. Nesse sentido, o heroísmo não é mais singular, mas plural: ele é polifônico, ele é coisa de todos, na medida em que o povo é “convidado” a participar do referido empreendimento utópico. Se antes os deuses salvavam os seus heróis, elevando-os à condição sobre-humana, agora, em tempos modernos, aparece um novo recurso: a Razão é convocada para salvar os homens de todos os abismos.
Na tela “A Jangada do Medusa” (1), Théodore Géricault figura o novo tempo com seus heróis anônimos gestados por intermédio do movimento do pensamento iluminista. Os personagens da tela são inspirados em quê? Num fato histórico, isto é, o pincel do pintor age como a pena do repórter, cujo grau de realismo busca reconstituir todos os detalhes de um trágico acontecimento. Mas qual é o realismo que está por detrás dessa imagem dantesca? O realismo traduz a esperança dos sobreviventes de um naufrágio à vista do “Argus” - o “navio redentor”, irmão do “Medusa”. Homens desgraçados e em situações emocionais extremas de pânico, angústia e desespero olham e acenam, num estupor de esperança e desesperança, para o engenho humano “Argus” - a derradeira tábua de salvação dos náufragos.
A pintura parece “narrar” uma verdade poética, na medida em que age como uma metáfora da violenta e feroz “odisséia” da modernidade, cumpridora da “epopéia” de uma nova ordem político-econômica rumo ao privilegiado futuro.
Quem são precisamente os personagens d’ “A Jangada do Medusa”?
No verão de 1816, uma fragata real francesa – “Medusa” - naufraga nas costas da África, enquanto levava soldados e colonos franceses para a missão de colonizar o Senegal. O capitão do navio foge, e a jangada com os seus sobreviventes fica à deriva em alto mar à mercê de violentas tempestades, durante quinze dias. Procurando cumprir exemplarmente as ordens da burguesia e do comércio, dentro da jangada vemos homens nus e seminus nutridos por suas ânsias e esperanças vãs, verdadeiros espectros cambaleando ao ritmo da dança macabra regida pelos vagalhões do violento mar. Na jangada, no decorrer dos acontecimentos, foi instaurada a prática do canibalismo entre os infelizes partícipes da ação histórica fracassada, traduzindo-se numa metáfora da brutalidade política do Estado Moderno recém-instituído. Homens são orientados a mergulhar no futuro - sem o auxílio de deuses e sem as palavras das ninfas - somente com os olhos fixos no prodigioso e ameaçador espetáculo da natureza, e em busca do prometido admirável mundo novo, a fim de satisfazer os desejos titânicos dos novos poderes estabelecidos. Entretanto, o cenário natural desvenda os novos e mortais caminhos tão ambicionados pelos rumos da História recente que, com freqüência, trai os seus protagonistas. Nesse sentido, a fragata agitada e “engolida” pelos imensos vagalhões pode servir de metáfora para um Estado que abandona aqueles que o servem.
Ao fitarmos o céu desta paisagem dantesca - ou para a polaridade entre a luz e a sombra, que se desdobra sobre o mar revolto - parece-nos que Géricault procurou estabelecer os limites entre a clareza e a obscuridade ou entre o racionalismo e o irracionalismo do novo empreendimento humano, no qual o sagrado perde o direito de existir à luz da razão. Com o movimento dramático das figuras no quadro, Géricault nos comove com forte dose emotiva: a exposição dos cadáveres pelos cadáveres representa um marco político. Nela o pintor procura exprimir com intensidade dramática e épica os fatos contemporâneos.
Metáfora de uma sociedade que devora os próprios filhos, o quadro representa uma tragédia coletiva com suas esperanças e desesperanças igualmente coletivas (“Argus”, ao longe, pode, também, representar aos sobreviventes a esperança depositada nas novas formas políticas). A pintura, exercendo o papel de desvendamento da história oficial de uma época, se faz metáfora do absurdo, convertendo-se duplamente no emblema perverso do tempo burguês e numa manifestação de uma das doenças da Razão: da redenção da humanidade pelo progresso histórico. Como cenário de uma tragédia moderna, “A Jangada do Medusa” parece retratar a nossa aventura errante nos quadros de uma modernidade indiferente às multidões ou às massas anônimas lançadas ao abandono no interior das sociedades contemporâneas.

NOTAS

1.Cf. a referida tela no seguinte site: http:/www1.uol.com.br/bienal/24flash/nuh/frag_rabelais_g.htm
(outras referências: GÉRICAULT – 1791/1824 – A Jangada do Medusa, 1819. Paris, Museu do Louvre.)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOMERO. “Odisséia”. Tradução Jaime Bruna. 13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

JOYCE, James. “Música de Câmara”. Tradução Alípio C. Franca Neto. São Paulo: Iluminuras, 1998.

VERGÍLIO. “Eneida”. Tradução Carlos A. Nunes. São Paulo: UnB e A Montanha, 1983.

__________________________

Coleção:

“A Grande Arte na Pintura”. Tradução Virgínia Guimarães. Barcelona: Salvat Editores S/A, 1987 (vários volumes).

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2006

criado por cas24038137    21:08 — Arquivado em: Ensaios

2 Comentários »

  1. Comentário por Madalena Barranco — 15 de março de 2007 @ 0:55

    Querido amigo Sílvio,

    Seu blog está ficando da vez mais interessante! Este texto e o primeiro são para saborear aos poucos, e tentar entender o efeito da sociedade sobre o mundo.

  2. Comentário por Ana Valéria Sessa — 15 de março de 2007 @ 1:51

    Sílvio,darling, a viagem mítica tinha uma extreita relação com uma viagem interna muito simples - a cada viagem externa, uma descoberta interna. Roland Bathes em seu livro “Mitologias” já mostrava a diferença do símbolo do barco na literatura universal usando dois exemplos: Le bateau Ivre de Rimbaud e o barco de Júlio Verne - no primeiro, o sujeito se funde ao barco, e se torna o próprio, no segundo, o sujeito tem o barco como uma casa, um lugar seguro em que ele tudo domina, a racionalidade controla a viagem. Aventura rumo ao desconhecido ? como ? Ulisses,de volta ao lar passa por cada ilha, cada uma representa um desafio a psique, para só então descansar na simples e verdejante Ítaca, o eterno retorno. Belíssima escolha no seu texto que nos faz refletir. Deixo uma estrofe de Rimbaud pra ti: ” e se anseio mares da Europa/ e a poça escura e fria/ onde ao crepúsculo perfumado/uma criança triste se abaixa e solta/ qual borboleta de maio/ um barco perfumado.”

    beijos,

    Valéria

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