Arquivinhos

Blog voltado à disseminação da produção intelectual do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, sobretudo no que se refere às seguintes áreas do saber: Filosofia, Poética, História, Literatura e Crítica Literária. Inclue-se, também, a poética de FERNANDO MEDEIROS.

30/3/07

ETERNO

Reverbero é o eterno
em forma de acústica.
Refervendo a dinâmica
da música eterna.
Reverbero é retroceder
mais ainda o recomeço,
recriando pelo avesso.
Reverbero é a única
pitada de ser eterno.
Rever-se no íntimo
uma lenda infinda
no concreto da realidade.
Reverbero é início
da escalada e
mais o nada.
Reverbero uma poesia e mais
a calada da boca.
Reverbero é esperar
o eterno.
É vestir o terno
para tomar a cicuta.
Reverbero é referver-se por dentro
e mais o alento.
Reverbero é castigar
o eu que sozinho
procura um grito.
Reverbero é caminhar
sincero para o eterno,
É recriar-se.

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.

 

 

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 30/03/2007
Código do texto: T431596

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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29/3/07

DECOMPOSIÇÃO

Flor de Amendoeira

Van Gogh

A luz dos olhos vai se perdendo…
e tudo o mais se condiciona
à lona na qual a máscara junta-se à lama.
Um gesto restrito ao lamento,
a mão que se lança sobre a face
para chorar,
chorar o corpo
sobre a máscara da terra.
A face e o capuz,
e o pintor cego que sensivelmente chora
para o sol,
nos ombros das trevas.
E tudo se conflita na companhia dos vermes.
A face de luz é de quem se perde
com uma cruz solitária por entre as trevas.
E a condição nos desfaz,
desfaz-se, e a podridão contamina
a última célula, e tudo o mais
se condiciona ao lixo.
Disfarce de luz, e tudo abaixo
conforme a farsa que se consome
e o nome que se assina
perante o descaso.
É o prazo que se dá à face
e um impasse que sai do lixo.
Desfaço a própria palavra,
e o agiota dos sonhos presencia os seus
juros conforme o crédito que se dá
à próxima face, que se desfaz…
E tudo se junta ao que apodrece…
A luz desfazendo-se…
A face, o disfarce, a máscara e a decomposição.
No entanto, um vegetal resiste sensivelmente
além do apelo,
resiste em meio ao túmulo,
e cresce entre a dor
da fome de sol
e a agonia de todos os frutos.

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, dezembro de 2006.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/12/2006
Código do texto: T317335

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26/3/07

ESTANDARTE E CONSTELAÇÃO

Constelação

de Orionte

 

Estandarte e constelação,
iluminar é a convulsão.
No rastro do ontem
o pesadelo de outrora
a caminho, a caminho…
Estandarte e assombração,
castigado e esmorecido
vou pelo caminho
outrora um pergaminho.
Silêncio ao amanhecer,
é mais uma incógnita?
A resposta só poderá
vir do horizonte…
Um caminho sem tréguas?
Só resta a confiança
no Arquiteto dos Céus.
Um resquício de fibra.
Estandarte e constelação,
está longe a vitória.
Até onde a constelação
a caminho do próprio
caminho.
Estandarte e constelação
está lá nos céus
de um caminho
sobre um caminho.
Aconchego e variação,
nova madrugada,
rima do desassossego.
Estandarte e constelação
Ainda é possível a vitória?

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.

criado por cas24038137    9:06 — Arquivado em: Poética de Fernando Medeiros

25/3/07

PASSADO E PESADELO

 

Passada em frente,
começa de novo o pesadelo.
Passada larga,
é longa a estrada.
Passado e descaminho,
mais uma vez sozinho.
Passado em largo,
mais uma vez no charco
esperando o lago.
Passada por perto,
mais uma vez o concreto.
Passado do esperto,
mais uma vez a angústia.
Passado e pesadelo,
mais uma vez o apelo.
Passada por trilha,
a esperança de
não ser mais ilha.
Passada perto,
o mundo continua
dos que se dizem espertos.
Passada curta,
mais uma estátua nua.
Passada pela lua,
verão concreto.
Passada por gente,
o silêncio de um quase indigente.
Passada crua,
mais uma dívida com o desacerto.
Passagem nada,
esperar mais ainda…

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.

criado por cas24038137    20:50 — Arquivado em: Poética de Fernando Medeiros

15/3/07

Sra. SILHUETA

The Rose

de SALVADOR DALI

Sra. SILHUETA

Eu me lembro,
era há muito tempo,
majestosa silhueta em minhas Campinas!
Rodoviária;
rumo… São José dos Campos.
Ronco do motor,
partida…
Quarto banco é meu posto, de vigia,
primeiro banco: sra. Silhueta!
Embarque… ônibus parte; em vigília
vigilante meu olhar sobrevoa as poltronas
e desaba rumo ao livro
em mãos da elegante sra. Silhueta;
ela manipula, empurra as páginas;
desesperadas, descabeladas páginas,
mãos ágeis da sra. Silhueta…
Zig Zag… página avante, página anotada,
manipulada, rabiscada… o título!
“Deserto dos Tártaros”…
Sra. Silhueta torce, a torsão aos túrcicos, retorce, rabisca, risca, perfura e
tece, tece, tece…
Ouço gemidos, o ronco bronco;
os gritos das páginas…
A bela sra. segue sem rumo em silhuetas,
tempo medido em desmedida,
luta,
tempo sentido,
ampulheta,
e meu olhar colide com as mãos bárbaras, tártaras e
inquietas da nobre sra.
ora, ora, ora, páginas adiante, tempo avante!
Segue rumo certo, incerto;
mãos manipuladoras, saltam, pulam páginas, o grifo!
Mais um grito!
Da letra, das letras… rumam ao deserto,
rumo ao sol abrasador-matador-encantador…
As letras, as savanas, as estepes,
dunas de areia, sereia-oásis e
as letras brilham luminescência, Mercúrio!
Mergulho, essências, perfumes da sra. Silhueta;
a letra, as letras, as sílabas, vogais, consoantes, areias finíssimas
emolduradas em minha mente,
um quadro epifânico!
Rumo bem bem perdido… em pânico!
Tempo e espaço alternados,
alterados…
Meu olhar marcha sobre o quadro de letras;
ela porta as estrelas nas mãos,
que cortam, rasuram, apagam, amputam, anotam anotações,
constelações…
em abandono minhas defesas rotacampinasopmacinasaojosedostranstornadosonhosonolênciasiasonhosopmacampinasmaciasenhoracorreperdidameioaodesertartarosusbinôôô…

estrela cadente,
cabelos doirados,
caneta ou lápis?
Não me lembro, tão-somente mãos ágeis,
Sereia perigosa,
sra. Silhueta,
curvas sinuosas,
indecorosa Sereia,
gira a ampulheta,
areia fina a vida passa,
Sereia ociosa…
Intoxicanção de letras, signos,
sensações; prossigo, imaginações, estações…
Estação de embarque!
Marcus!
Desembarque…
_ Oi, Sylvius! Fez boa viagem?! – Alexandria.

Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é Marte-verão de 2007.

criado por cas24038137    20:14 — Arquivado em: Poética de Sílvio Medeiros

FANNY E ALEXANDER; Parte II

Cena do filme

FANNY E ALEXANDRE

 

“Alexander: Quem está atrás da porta?
Voz: É Deus que está aqui, atrás da porta.
Alexander: E não pode avançar um pouco mais?
Voz: Nenhum ser vivo deve ver o rosto de Deus.
Alexander: E o que é que você quer de mim?
Voz: Quero apenas comprovar que eu existo.
Alexander: Fico-lhe muito agradecido. Obrigadinho.
Voz: Pra mim, você não passa de um grão de poeira sem importância nenhuma. Sabia disso?
Alexander: Não.
Voz: Aliás, você é muito mau para sua irmã e seus pais, descarado diante dos professores e está sempre com pensamento ruins. Na realidade, não entendo por que é que eu deixo que você continue a viver, Alexander!
Alexander: Não?
Voz: O Sagrado! Alexander! (…) Deus é o mundo e o mundo é Deus. É muito simples.
Alexander: Eu peço muitas desculpas, mas se de fato é como você diz, então, eu também sou Deus!
Voz: Você não é Deus, de jeito nenhum. Você é apenas um pedacinho de merda, cheio de impertinência.
Alexander: Posso afirmar que sou menos impertinente que Deus…”

(Ingmar BERGMAN. Fanny e Alexander. RJ: Editorial Nórdica, 1985)

Ingmar Bergman dirigiu, também, “O Sétimo Selo” (1956), “Morangos Silvestres” (1957), “Gritos e Sussurros” (1973), “Cenas de um Casamento” (1974), “Face a Face” (1976) dentre outras obras-primas.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005

criado por cas24038137    13:58 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

FANNY E ALEXANDER; Parte I

Cena do filme

FANNY E ALEXANDER

                                                            Ao dr. Renato Ienny e Kátia.

 

“Ela sorriu e, após breve hesitação, respondeu: _ Agradecer ao destino, penso eu, por termos escapado incólumes de todas as aventuras - as reais e as sonhadas.
_ Você tem certeza de que é o que você quer também?
_ Estou tão certa quanto suspeito que a realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida não significa sua verdade mais íntima.
_ Nem sonho algum - suspirou Fridolin baixinho - é totalmente sonho…”
(Arthur SCHNITZLER. Breve Romance de Sonho. RJ;SP: Biblioteca Folha,2003)

O filme “Fanny e Alexander”, do genial cineasta sueco Ingmar Bergman, é considerado uma obra-prima e uma de suas mais brilhantes produções cinematográficas, pois, num profundo mergulho sobre a alma humana, refletiu, com delicadeza e com perfeccionismo, sobre os enigmas, os prazeres e os terrores do universo infantil. Com 3 horas e 8 minutos de duração, a linha fundamental de “Fanny e Alexander” é auto-biográfica (e isto é flagrante no filme!). As crianças do filme são encantadoras e inseparáveis: Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve); a casa abastada onde ambas vivem é extraordinariamente burguesa. A avó, uma atriz riquíssima, é uma personagem quase mítica, que habita o apartamento de baixo. Em toda a casa há um mundo feminino que tudo domina. O teatro é um lugar onde as crianças brincam e procuram refúgio. O menino Alexander é, sem dúvida, um alter-ego de Bergman, experienciando o puritanismo hipócrita do pastor Vergerus (Jan Malmsipe), que vem a se tornar padrasto de Alexander, em contraponto aos prazeres mundanos que Alexander encontra nas saborosas refeições, no bom humor, na liberação, enfim, no bem viver da casa da avó. Vale ressaltar que o pai de Ingmar Bergman era pastor luterano, tendo castigado severamente o cineasta na infância.
Vários temas estão presentes no filme: amor, ódio, paixão, ressentimento, religião, angústia, neurose familiar, inveja, morte etc. entrecruzados de forma fulgurante com magia, humor e sensibilidade, celebrando, desse modo, o amor de Bergman pela arte cinematográfica. Para quem a arte, a obra e a vida são uma mesma e única coisa, Bergman resume “Fanny e Alexander” com essas belas palavras: “Penso nos meus tempos de menino com prazer e curiosidade (…) Minhas horas e meus dias viviam repletos de coisas interessantes, cenários inesperados, instantes mágicos. Ainda hoje posso percorrer a paisagem da minha infância e sentir de novo todo aquele passado de luzes, aromas, pessoas, aposentos, instantes, gestos, inflexões, vozes, objetos (…) O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (…) Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real…”

Prof. Dr. Sílvio Medeiros/ Campinas, é primavera de 2005.

criado por cas24038137    13:49 — Arquivado em: Resenha (Cinema)

RADUAN NASSAR

    

Foto do escritor RADUAN NASSAR

     "O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá de casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as cores de nossa flores, traçando com engenho as linhas do seu teorema, atraindo, debaixo de um enorme peneira azul, muitas pombas em revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da vila (…)" [trecho do belo romance "Lavoura Arcaica"] 

Cena do filme LAVOURA ARCAICA

Montagem: Prof. Dr. Sílvio Medeiros - é Marte verão de 2007.

criado por cas24038137    8:59 — Arquivado em: Arquivinhos de Re-citações

14/3/07

A JANGADA DO MEDUSA; Parte II

James Joyce, autor do romance "Ulisses"

 

Atravessando séculos e séculos - do tempo mítico para o tempo histórico -, o percurso do herói moderno tende a constituir-se no reverso do percurso do herói épico. Se os heróis clássicos se definem como homens de descendência divina, destacando-se dos comuns dos mortais pela coragem ou pela interpelação do auxílio divino, no alvorecer da modernidade, com a potência civilizatória engendrada pelas Revoluções Francesa e Industrial, surge um novo tipo de herói, agora secundado pela expansão ilimitada do domínio racional, tornada fundamento auto-suficiente de uma política utópica dotada de um espírito tecno-científico que se pretende muito eficaz em matéria de controle da natureza - o futuro é a terra prometida! Assim, a “deusa Razão” deseja realizar-se na história humana, denunciando tiranias e superstições e proclamando o fim das fronteiras entre os povos. Nesse sentido, o heroísmo não é mais singular, mas plural: ele é polifônico, ele é coisa de todos, na medida em que o povo é “convidado” a participar do referido empreendimento utópico. Se antes os deuses salvavam os seus heróis, elevando-os à condição sobre-humana, agora, em tempos modernos, aparece um novo recurso: a Razão é convocada para salvar os homens de todos os abismos.
Na tela “A Jangada do Medusa” (1), Théodore Géricault figura o novo tempo com seus heróis anônimos gestados por intermédio do movimento do pensamento iluminista. Os personagens da tela são inspirados em quê? Num fato histórico, isto é, o pincel do pintor age como a pena do repórter, cujo grau de realismo busca reconstituir todos os detalhes de um trágico acontecimento. Mas qual é o realismo que está por detrás dessa imagem dantesca? O realismo traduz a esperança dos sobreviventes de um naufrágio à vista do “Argus” - o “navio redentor”, irmão do “Medusa”. Homens desgraçados e em situações emocionais extremas de pânico, angústia e desespero olham e acenam, num estupor de esperança e desesperança, para o engenho humano “Argus” - a derradeira tábua de salvação dos náufragos.
A pintura parece “narrar” uma verdade poética, na medida em que age como uma metáfora da violenta e feroz “odisséia” da modernidade, cumpridora da “epopéia” de uma nova ordem político-econômica rumo ao privilegiado futuro.
Quem são precisamente os personagens d’ “A Jangada do Medusa”?
No verão de 1816, uma fragata real francesa – “Medusa” - naufraga nas costas da África, enquanto levava soldados e colonos franceses para a missão de colonizar o Senegal. O capitão do navio foge, e a jangada com os seus sobreviventes fica à deriva em alto mar à mercê de violentas tempestades, durante quinze dias. Procurando cumprir exemplarmente as ordens da burguesia e do comércio, dentro da jangada vemos homens nus e seminus nutridos por suas ânsias e esperanças vãs, verdadeiros espectros cambaleando ao ritmo da dança macabra regida pelos vagalhões do violento mar. Na jangada, no decorrer dos acontecimentos, foi instaurada a prática do canibalismo entre os infelizes partícipes da ação histórica fracassada, traduzindo-se numa metáfora da brutalidade política do Estado Moderno recém-instituído. Homens são orientados a mergulhar no futuro - sem o auxílio de deuses e sem as palavras das ninfas - somente com os olhos fixos no prodigioso e ameaçador espetáculo da natureza, e em busca do prometido admirável mundo novo, a fim de satisfazer os desejos titânicos dos novos poderes estabelecidos. Entretanto, o cenário natural desvenda os novos e mortais caminhos tão ambicionados pelos rumos da História recente que, com freqüência, trai os seus protagonistas. Nesse sentido, a fragata agitada e “engolida” pelos imensos vagalhões pode servir de metáfora para um Estado que abandona aqueles que o servem.
Ao fitarmos o céu desta paisagem dantesca - ou para a polaridade entre a luz e a sombra, que se desdobra sobre o mar revolto - parece-nos que Géricault procurou estabelecer os limites entre a clareza e a obscuridade ou entre o racionalismo e o irracionalismo do novo empreendimento humano, no qual o sagrado perde o direito de existir à luz da razão. Com o movimento dramático das figuras no quadro, Géricault nos comove com forte dose emotiva: a exposição dos cadáveres pelos cadáveres representa um marco político. Nela o pintor procura exprimir com intensidade dramática e épica os fatos contemporâneos.
Metáfora de uma sociedade que devora os próprios filhos, o quadro representa uma tragédia coletiva com suas esperanças e desesperanças igualmente coletivas (“Argus”, ao longe, pode, também, representar aos sobreviventes a esperança depositada nas novas formas políticas). A pintura, exercendo o papel de desvendamento da história oficial de uma época, se faz metáfora do absurdo, convertendo-se duplamente no emblema perverso do tempo burguês e numa manifestação de uma das doenças da Razão: da redenção da humanidade pelo progresso histórico. Como cenário de uma tragédia moderna, “A Jangada do Medusa” parece retratar a nossa aventura errante nos quadros de uma modernidade indiferente às multidões ou às massas anônimas lançadas ao abandono no interior das sociedades contemporâneas.

NOTAS

1.Cf. a referida tela no seguinte site: http:/www1.uol.com.br/bienal/24flash/nuh/frag_rabelais_g.htm
(outras referências: GÉRICAULT – 1791/1824 – A Jangada do Medusa, 1819. Paris, Museu do Louvre.)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOMERO. “Odisséia”. Tradução Jaime Bruna. 13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

JOYCE, James. “Música de Câmara”. Tradução Alípio C. Franca Neto. São Paulo: Iluminuras, 1998.

VERGÍLIO. “Eneida”. Tradução Carlos A. Nunes. São Paulo: UnB e A Montanha, 1983.

__________________________

Coleção:

“A Grande Arte na Pintura”. Tradução Virgínia Guimarães. Barcelona: Salvat Editores S/A, 1987 (vários volumes).

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2006

criado por cas24038137    21:08 — Arquivado em: Ensaios

A JANGADA DO MEDUSA; Parte I

A JANGADA DO MEDUSA, de Theódore Géricault 

 

Epopéias, viajantes e o confronto dos tempos

“Escuto um exército em carga pela terra,
E estrondo de cavalos se arrojando, a espuma nos joelhos:
Arrogantes, com armadura negra, atrás deles se erguem,
Desdenhando as rédeas, com chicotes flutuantes, os cocheiros.

Eles bradam para a noite os seus nomes de guerra:
Choro dormindo ouvindo ao longe o vórtice da gargalhada.
Eles cindem o escuro onírico, fulgor que cega,
E martelam, martelam meu peito como a uma bigorna.

Eles vêm sacudindo em triunfo a verde e longa cabeleira:
Eles surgem do mar e aos berros correm pela praia.
Coração, não tens prudência nenhuma, com tal desespero?
Amor, amor, amor, por que me deixaste só ?”

(James Joyce. Música de Câmara, XXXVI)

(“ I hear an army charging upon the land
And the thunder of horses plunging, foam about thei knees.
Arrogant, in black armour, behind them stand,
Disdaining the reins, with fluttering whips, the charioteers.

They cry unto the night their battle-name:
I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter.
They cleave the gloom of dreams, a blinding flame,
Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil.

They come shaking in triumph their long green hair:
They come out of the sea and run shouting by shore.
My heart, have you no wisdom thus to despair?
My love, my love, my love, why have you left me alone?”)


VIAGENS EM TEMPOS PASSADOS E NA MODERNIDADE

O canto épico narra a precária relação entre os homens e a natureza confundida com os próprios deuses. Surpreendido com a estranheza do mundo que se abre em abismos, o herói aproxima-se dele, narrando-o. Em águas desconhecidas navega a jangada de Odisseu:

“ _ Ai de mim, desventurado! Que me acontece agora por último? A deusa, receio, em tudo me disse a verdade , quando me declarou que teria no mar a conta inteira de sofrimentos, antes de chegar à terra pátria. Eis que a predição se cumpre inteira, de tais nuvens cobre Zeus a imensidão do céu e conturba o mar, enquanto me assaltam os ímpetos dos ventos de todos os rumos. Agora é certo o meu fim abismal. Três, quatro vezes ditosos os dânaos que sucumbiram lá na Tróade vasta, pra bem merecerem os filhos de Atreu! Morresse eu também assim, deparando a minha sina, no dia em que hordas de troianos dispararam sobre mim seus dardos, disputando o corpo do filho de Peleu! Eu teria então exéquias e os aqueus espalhariam a minha fama; o destino decretou, ao invés, que eu pereça de morte mesquinha.
Enquanto assim falava , um grande vagalhão desabou do alto sobre ele, com tremenda violência, fazendo girar a jangada …” (Od. , pp.66-67)

Entretanto, a deusa marinha Leucotéia (guia dos marinheiros nas tempestades) tomou conhecimento da viagem mal sucedida do herói grego Odisseu, vindo rápido em seu auxílio. Ofereceu-lhe, então, um véu, pedindo que o estendesse sobre o peito. Dessa forma, o herói estaria a salvo da morte iminente. Odisseu, em meio ao tormento dos mares, a princípio duvidou das palavras da deusa. Por fim, atendeu-a quanto ao pedido. Abandonou a jangada, despiu-se e colocou o véu contra o peito. Durante dias o herói permaneceu subjugado aos desejos perversos dos deuses marítimos, que tentavam retirar-lhe a vida. Após muitos sofrimentos, e acreditando que a morte estivesse próxima, Odisseu avistou terras ao longe. Era a paradisíaca ilha dos feácios.
Do seio da epopéia homérica o jogo intertextual aponta para o insondável desconhecido, encontrando acolhimento renovado na epopéia virgiliana. O poeta latino narra as desventuras da viagem do herói Enéias, de Tróia ao Lácio; elas consistem em provas iniciáticas para a ascensão dos homens mortais à condição de heróis.

“Negra a noite o mar todo recobre. Troam os pólos; aos raios freqüentes o mar se ilumina. Tudo à visão dos troianos são formas variadas da Morte. Súbito, o frio percorre de Enéias os membros, deixando-os paralisados; aos astros as mãos elevando, por entre fundos suspiros, bradou: ‘_ Oh, três vezes e quatro felizes os que morreram à vista dos pais, sob o muros de Tróia! Ó tu, valente Tidida, o mais forte dos filhos de Dânao! Não ter eu tido a ventura, ao lutar nas campinas de Tróia de perecer sob os golpes dos teus fulminantes ataques, no mesmo ponto em que Heitor sucumbiu sob a lança de Aquiles, onde Sarpédone ingente, onde tantos escudos lascados e capacetes e corpos de heróis o Simoente carrega!’
Não acabara, e o violento Aquilão em reforço à tormenta bate de frente na vela maior e até aos astros a atira; quebram-se os remos; a proa se volta , deixando os costados à mercê d’ água.” (En. , p.11-12 )

Contudo, Netuno (deus do mar), não apreciando espetáculo tão triste, invoca os ventos propícios, tornando o mar manso. Assim, Enéias e seus sócios conseguem desembarcar nas costas da Líbia. Aproximam-se da morada das ninfas e ali descansam. Em seguida, partem em longa jornada rumo à fundação de Roma.
(continua em Parte II)

Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Campinas, é outono de 2006.

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